segunda-feira, maio 21, 2018

Como os nazistas usavam a propaganda?



Hitler dava grande destaque à importância da propaganda. Para ele, a derrota da Alemanha na I Guerra Mundial estava diretamente ligada à boa propaganda dos inimigos.
Para ele, a propaganda deveria funcionar como a artilharia antes da artilharia numa guerra. A propaganda deveria quebrar a principal linha de defesa do inimigo antes do avanço do exército.
Para o líder nazista, a propaganda deveria ser sempre popular, dirigida às massas e nivelada por baixo: “As grandes massas têm uma capacidade de recepção muito limitada, uma inteligência modesta, uma memória fraca”.
Por isso, a propaganda deveria restringir-se a pouquíssimos pontos, repetidos incessantemente. Era necesário não dispersar o foco e atenção, de modo que, se fosse necesário despertar o ódio do povo a vários inimigos, tornava-se necessário agrupá-los em um só grupo, mostrando que todos faziam parte da mesma categoria.
O essencial era atingir o coração das pessoas, e não a razão. A massa, segundo Hitler, seria como as mulheres, incapaz de compreender argumentos racionais, mas facilmente tocada por uma “vaga e sentimental nostalgia por algo forte que as complete”.
Não havia nenhum limite moral ou ético para a propaganda nazista. Se fosse necessário mentir, o correto era mentir dizer uma grande mentira, de modo que nem passasse pela cabeça do povo ser possível uma tão profunda falsificação da verdade.

Pistas de qualidade



           
            Um dos conceitos mais interessantes do marketing é o de pistas de qualidade, ou qualidade aparente. Esse conceito surgiu da idéia de que o consumidor comum não tem como avaliar a qualidade técnica de um produto. Só um especialista em nutrição, por exemplo, pode avaliar com segurança a qualidade de uma refeição. Só um especialista em eletrônica pode avaliar a qualidade técnica de um eletrodoméstico.
            Mas o consumidor, quando compra, precisa ter alguma indicação, algo que o ajude a escolher entre este ou aquele produto. Percebendo isso, os marketeiros começaram a colocar nos produtos demonstrações visíveis da qualidade técnica. Isso foi chamado de qualidade aparente, ou pista de qualidade.
            Essa situação foi muito bem exemplificada mais de mil anos atrás, quando surgiu a suspeita de que a mulher de Júlio César o estaria traindo e ele abriu uma investigação. Um amigo abordou-o: "Mas, César, você sabe que sua mulher é fiel". "À mulher de César não basta ser fiel, tem que parecer fiel", respondeu ele. É possível que a história seja inventada, ainda mais levando em consideração os costumes sexuais liberais do romanos, mas serve para demonstrar o conceito: um produto não só tem que ter qualidade, ele precisa aparentar qualidade.
            Por exemplo, alguém já viu toalhas de hotel de cor escura? Elas são geralmente brancas, pois numa toalha branca a limpeza é visível. Se houver um mínimo de sujeira, o consumidor imediatamente identificará.
            Uma das mais famosas lojas dos EUA, a Stew, é especializada em carnes e laticínios. O dono da loja faz questão que nos banheiros haja sempre flores frescas e que a limpeza seja impecável. A explicação dele é que, como o consumidor não vê a produção de seus produtos, o banheiro é um dos maiores indícios da higiene com que esses produtos são fabricados.
            Entrar num restaurante e encontrar um banheiro sujo, imundo, é uma pista de falta de qualidade, e são poucos os consumidores conscientes que continuarão no estabelecimento, pois a falta de limpeza no banheiro provavelmente reflete a falta de limpeza na cozinha.
            Muitas empresas que trabalham com comida procuram tornar transparentes a produção de seus produtos. É o caso do McDonalds, cuja cozinha é aberta e fica visível para o cliente.
            No supermercado, a transparência da embalagem, no caso do feijão, permite ver a qualidade do produto. É por isso, também, que a água mineral é vendida em embalagens transparentes ou azuladas (o azul lembra limpeza).
            Numa loja, uma vitrine bem trabalhada, com produtos novos e atraentes, é pista de qualidade que levará o consumidor a comprar. Ao contrário, uma vitrine com produtos velhos, amassados, fora de moda ou empoeirados é pista de falta de qualidade. 
            Costumo comprar pão em uma padaria longe de casa, mas que tem toda uma preocupação com a qualidade aparente. O caixa fica longe dos pães, os vendedores não pegam em dinheiro e são orientados para usarem touca e luvas. Antigamente usavam um avental branco. Foi introduzido um novo uniforme, de cor escura, mas a cor escura não passava a idéia de limpeza e eles voltaram a usar o avental.
            Infelizmente, em Macapá são poucos os empresários como esse dono de panificadora, que se preocupam com as pistas de qualidade de seus produtos.
            O exemplo mais absurdo que vi foi com um vendedor de batatas fritas na área próxima da Fortaleza de São José. Além de não usar luvas, toucas ou avental, ele não tinha uma espátula ou colher para recolher as batatas e colocar no copinho e fazia isso com a mão... a mesma mão que pegava o dinheiro dos fregueses. O uso de um colher era medida simples e básica de higiene e, portanto, pista de qualidade (pelo menos uma, no meio de tantos absurdos).
            Vendo aquilo, eu desisti de comprar a batata. Argumentei que era falta de higiene e que tal atitude facilitava a propagação de doenças. Isso só fez com que o vendedor ficasse furioso comigo.

A arte incrível de Geraldo Borges


Nascido em Fortaleza, Geraldo Borges trabalha com quadrinhos desde 1997, quando desenhou a Revista Capitão Rapadura. Representado pelo Chiaroscuro Studios, maior agência brasileira de artistas para o mercado americano, tem feito trabalhos para a Marvel (Nova), DC Comics (Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Batman, Lanterna Verde, Legião dos Super-heróis, Asa Noturna, Superman, Aquaman), Dark Horse (Ghost) e Dynamite (Pathfinder).
Atualmente é  desenhista regular da série Angel Season 11, adaptação da série de TV criada por Joss Whedon, publicada pela Dark Horse. Além disso, é professor da Universidade Potiguar nos cursos de Design Gráfico e Jogos Digitais.












domingo, maio 20, 2018

A indústria cultural


O conceito de Indústria Cultural foi veiculado pela primeira vez em 1947, por Horkheimer e Adorno, no texto "A dialética do Iluminismo". O termo foi cunhado em oposição à cultura de massa, que dava a idéia de uma cultura surgida espontaneamente da própria massa.
Para Adorno, a idéia de que os produtos da Indústria Cultural vêm do povo é equivocada, pois a Indústria Cultural, ao aspirar à integração vertical de seus consumidores, não apenas adapta seus produtos ao consumo das massas, mas também determina esse consumo.
O termo Indústria Cultural  é mais adequado, pois deixa bem claro que tais peças culturais são produtos fabricados para serem consumidos, assim como sabonetes e carros.
É importante notar, como destaca José Marques de Melo, que as reflexões da escola de Frankfurt foram feitas durante "a transição da sociedade industrial para a sociedade da informação, tendo a emergente indústria cultural como protagonista hegemônico.
Adorno e Horkheimer partem da constatação de que a sociedade industrial não havia realizado as promessas do iluminismo humanista. O desenvolvimento da técnica e da ciência não trouxe um acréscimo de felicidade e liberdade para o homem.
Considerando-se, diz Adorno, que o iluminismo tem como finalidade libertar os homens do medo, tornando-se senhores de si e liberando-os do mundo da magia, do mito e da superstição, e admitindo-se que essa finalidade pode ser atingida por meio da ciência e da tecnologia, tudo levaria a crer que o iluminismo instauraria o poder do homem sobre a ciência e a técnica. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Liberto do medo mágico, o homem tornou-se vítima de um novo engodo: o progresso da dominação técnica.
Ao invés do libertar a humanidade, o progresso da técnica acabou por escravizar o homem, alienando-o.
Os meios de comunicação de massa, resultado direto de desenvolvimento da técnica, tiveram papel importante nesse processo de escravização da massa.
Segundo os pensadores frankfurtianos, a reprodutibilidade técnica tirou tanto da cultura popular quanto da cultura erudita o seu valor real. O resultado, a Indústria Cultural, não conduz à experiência libertadora da fruição estética.
O próprio princípio da reprodução deformaria a obra, pois ela seria nivelada por baixo, evitando sempre que possível aqueles elementos que poderiam interferir no seu caráter de produto.
Exemplo disso podemos ver na adaptação da Disney para o clássico “O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo. A história foi "adocicada" para se tornar mais palatável ao consumidor...
Assim, a Indústria Cultural pretende alienar, e não conscientizar; acomodar, e não incitar.
Para os frankfurtianos, os produtos da Indústria Cultural teriam três funções:
A.    ser comercializados;
B.    promover a deturpação e a degradação do gosto popular;
C.   obter uma atitude sempre passivados seus consumidores.
Como são feitos para serem vendidos, os produtos da Indústria Cultural jamais devem desagradar os compradores. A produção é homogeneizada e nivelada por baixo.
Para Adorno, a visão crítica por parte do expectador não é possível dentro da Indústria Cultural, pois "A transformação do ato cultural em valor suprime sua função crítica e nele dissolve os traços de uma experiência autêntica".
Embora seja fundamental para a análise dos meios de comunicação de massa, em especial na primeira metade do século passado, a noção de Indústria Cultural tem sido objeto de diversas críticas.
Martellart, por exemplo, desconfia que Adorno e Horkheimer estigmatizaram a Indústria Cultural em decorrência de seu processo de fabricação atentar contra certa sacralização da arte: "Na verdade, não é difícil perceber em seu texto o eco de um vigoroso protesto erudito contra a intrusão da técnica no mundo da cultura".
Além disso, as idéias da escola de Frankfurt, mesmo atacando o conformismo, acabaram se tornando um discurso conformista, de pessoas que, confortavelmente em suas poltronas ou empregos, apenas criticam a indústria cultural, sem, no entanto, apresentar qualquer opção.

sábado, maio 19, 2018

O plano de Hitler para o mundo era um projeto estético?



Sim, Hitler queria criar um novo mundo, dominado por uma beleza ariana. O filme "Arquitetura da Destruição" (Suécia, 1989), de Peter Cohen mostra a evolução da proposta estética nazista.
Segundo do documentário, Hitler queria embelezar o mundo, mesmo que para isso fosse necessário destruí-lo.
Hitler, assim como alguns de seus mais próximos colaboradores eram intimamente ligados à arte. O ditador chegou a produzir algumas gravuras, que posteriormente foram usadas como modelos para obras arquitetônicas.
Os nazistas dizia que a arte moderna representava uma sociedade e um ser humano degenerados e estava relacionada ao bolchevismo e aos judeus. Hitler destacava a semelhança entre as figuras deformadas da arte moderna e as pessoas deficientes, provocadas, segundo ele, pela mistura de raças.
Em contraposição a isso, ele defendia o ideal de beleza ariana que fosse sinônimo de saúde. O mundo imaginado por Hitler seria domiando por homens e mulheres arianos, de corpos perfeitos e belos.
Para conseguir chegar a esse estágio ideal, era necessário eliminar a sujeira representada pelos judeus. Os nazista associaram a limpeza que deveria ser feita pelo trabalhador em sua casa e em seu local de trabalho, com a limpeza racial que deveria ser feita na Alemanha. .

Livro reúne contos de Lovecraft



Contos reunidos do mestre do horror cósmico é, provavelmente, o mais completo volume de Lovecraft já publicado no Brasil. É uma impressionante coletânea em quatro ciclos: Ciclo de Cthulhu, ciclo dos sonhos, miscelânea e juvenília. Para os fãs do pai do horror contemporâneo o volume traz a possibilidade de acompanhar a elaboração da mitologia lovecraftiana cronologicamente. Assim é possível perceber como o autor foi construindo essa mitologia. Ajuda também os pequenos textos que introduzem cada conto. Além disso há nada menos que nove textos sobre o autor e sua obra, desde uma biografia até a análises sobre a ideologia de Lovecraft aos filmes baseados em sua obra. 
O volume, em capa dura, foi financiado via Catarse (eu fui um dos que apoiaram o projeto). Atualmente pode ser comprado no site da editora: https://www.editoraexmachina.com.br/product-page/contos-reunidos-do-mestre-do-horror-c%C3%B3smico.

A arte espetacular de Dave Hoover


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres. 












sexta-feira, maio 18, 2018

Grade ou matriz curricular?

É comum ouvir pessoas falarem de uma tal de "grade da escola", que deveria ser seguida rigidamente pelo professor. Mas o que é essa tal de "grade da escola"?
Para começar, não existe grade da escola. Quer dizer, existe. Algumas escolas têm grades nas janelas. Mas o que a pessoa, especialista em educação, deve estar se referindo é a "grade curricular", um termo que não é mais usado há muito tempo. Hoje usa-se matriz curricular.
Grade significação prisão: é uma normatização rígida da educação que não deixa margem para adaptações.
Um ótimo exemplo de grade curricular é a frase "Vovô viu a uva". Crianças do Rio Grande do Sul ao Amazonas eram alfabetizadas com ela. Crianças que nunca tinham visto uma uva aprendiam a ler com uma frase que não lhe dizia nada. Mas todos deviam seguir a grade curricular, então todos os professores, de norte a sul, seguiam a grade curricular.
Já a matriz curricular permite adaptações, é flexível.
Um exemplo. Certa vez, quando lecionava redação, cheguei na sala de aula e descobri que os alunos só falavam do fim do mundo. No dia anterior, uma matéria do Fantástico mostrara um grupo de fanáticos que acreditava que o mundo iria acabar aquela semana. O livro me indicava um determinado tema para a redação, mas eu o modifiquei. Fizemos um pequeno debate sobre o que os alunos achavam sobre a questão do fim do mundo e depois cada um escreveu uma redação sobre o tema.
Isso é matriz curricular.

Sonerd -Sugestão Literária - Parte 1 - Gian Danton - O Uivo da Górgona

Agulha Hipodérmica – o poder e os efeitos dos meios de comunicação de massa


Em 2002 eu organizei a coletânea Agulha Hipodérmica – o poder e os efeitos dos meios de comunicação de massa com vários artigos de pesquisadores brasileiros.
A teoria hipodérmica foi a primeira teoria da comunicação – e partia do princípio de que a mídia tinha poder absoluto sobre as pessoas, injetando seus conteúdos diretamente no cérebro da audiência.
Era influenciada pela experiência de Pavolv com um cachorro. O cientista russo percebeu que se tocasse uma sineta toda vez que dava comida ao cão o estímulo sineta era associado à comida e, depois de algum tempo, o simples som da sineta provocava a salivação. Isso gerou o esquema Estímulo-resposta, aplicado à comunicação com os teóricos defensores da teoria hipodérmica.
Embora esta seja a teoria mais antiga no campo da comunicação, este foi o primeiro livro exclusivamente sobre o assunto lançado no Brasil.

quinta-feira, maio 17, 2018

Qual a importância da guerra civil espanhola para os nazistas?



A guerra civil espanhola foi o principal campo de provas das novas técnicas de luta que seriam introduzidas pelos alemães.
A Alemanha enviou à Espanha centenas de carros de combate, aviões, artilharia, armamento individual e aproximadamente 5 mil especialistas militares, na maioria pilotos reunidos na Legião Condor.
Os estrategistas alemães usaram a Espanha para testar a guerra aérea, muito propagada pelos teóricos militares. Descobriram que os aviões da época eram deficientes para atingir objetivos estratégicos. Havia, por exemplo, a falta de precisão dos bombardeios. Isso levou os técnicos da Luftwaffe a desenvolverem um novo sistema de navegação, o X-Gerat e o Knickebein.
Os aviadores aprenderam a coordenar suas ações com as forças terrestres, fornecendo apoio e ágil poder de fogo. Os aviões junkers e Stukas tornam-se especialistas em bombardeamento em mergulho, que irá provocar muitas perdas nos combates da Polônia.
Os alemães compreendem que é necessário romper com as táticas em que os caças atacavam sozinhos, comuns na I Guerra. Assim, criam a formação de quatro, com dois pares, cada um contando com um líder e um ponteiro.
Mas o maior ganho dos nazistas com a guerra da Espanha foi a experiência adquirida pelos pilotos. Os que passavam pela escola espanhola voltavam para a Alemanha repassar sua experiência para os colegas, enquanto outros iam aprender na prática. Quando estoura a II Guerra Mundial, nem um outro país do mundo tem tantos pilotos experientes em combate.

Mata-me, ó Deus

"Mata-me, ó Deus", graphic com roteiro de Marcos Guerra e arte de Marcos Garcia e Carlos Alberto é um dos trabalhos mais instigantes lançados no FIQ.
O roteiro, que lembra muito Jodorowsky, trata de um mundo pós-apocaliptico em que os continentes foram invadidos pela água e o clima se tornou um perene inverno. 
Nesse mundo um viajante vai em busca de um alquimista em busca de ouro para reconstruir a economia do planeta. Mas o que encontra é algo muito além disso (difícil dizer sem spoiler).
Embora o texto seja preciso, poético, é uma história visual. E, nesse sentido, os dois artistas fizeram um trabalho fenomenal, que lembra muito o grande Watson Portela.
Filosofia, religião e uma arte realmente impressionante.

Hoje tem rádio pop!


Skreemer: a história de um gigante

Existem obras que, pela qualidade visual e literária, transformaram os quadrinhos na nona arte. Um exemplo disso é a minissérie Skreemer, de Peter Milligan (texto) e Brett Ewins (desenho). Os dois produziram uma obra que, embora tenha tido inspiração na literatura, não caberia num livro.
O tutor literário de Milligan é James Joyce, autor de Ulisses. Foi no livro Finnegan´s Wake que o roteirista se baseou para escrever sua HQ. Por sua vez, o livro de Joyce é uma referência a uma canção popular irlandesa, na qual um homem volta do mundo dos mortos após levar um banho de uísque.
Na história em quadrinhos, os EUA são dominados por gangues, que governam o país. O maior dos chefões é Sreemer, um homem frio, atormentado pelo destino.
Quando a história começa, a império de Skreemer está desmoronando. As outras quadrilhas o cercam, preparando-se para lançar o ataque final. Mas o gigante não pretende cair. Para isso, ele lançará sobre a cidade balões com um novo tipo de doença, contra a qual apenas ele tem a cura. Isso criará a instabilidade necessária para que a era da queda se perpetue.
Toda a história (seis capítulos) se passa na meia-hora, no máximo: enquanto espera a concretização de seu plano, Skreemer se lembra de seu passado. É aí que entra o grande charme de Skreemer: os flash backs. Fora a meia-hora de espera, todo o resto são lembranças do gangster.
Milligan ainda meteu pelo meio a história da família Finnegan, cujo patriarca se orgulha de ter o nome ligado a um livro de James Joyce que, como a vida, andava em círculos e era complicado demais para se entender.

Essa trama é usada para discutir, entre outros assunto, o destino, cuja mão implacável parece governar a todos. Skreemer se torna um MacBeth moderno, um monarca atormentado pelo estigma da traição e da queda, lutando para romper um futuro que parece inevitável. Mais que uma boa história em quadrinhos, Skreemer é um exemplo de como os quadrinhos superam, em alguns sentidos, até mesmo a literatura. A alternância entre cenas do presente e do passado é feita através de mudanças de coloração (opaca nos flash backs). Texto e desenho se unem para transmitir uma mensagem que permite várias leituras. 

quarta-feira, maio 16, 2018

Howard, o pato



A década de 1970 na Marvel foi a era dos quadrinhos estranhos, fora da caixinha. A regra parecia ser “não há regra” – e eram muitas as experimentações. Surgiram desde quadrinhos sobre heróis espirituais, como Warlock, até quadrinhos sobre artes marciais (Mestre do Kung-fu). Até personagens clássicos, como o Dr. Estranho, tiveram aventuras que saiam completamente do comum – com o personagem contracenando com uma lagarta fumadora, por exemplo. Tudo isso capitaneado por uma geração de hippies que aproveitou ao máximo a abertura que a indústria de entretenimento estava lhes dando naquele momento.
Mas nenhum quadrinho foi tão revolucionário, tão fora da caixinha quanto Howard, o pato.
 O personagem surgiu como coadjuvante em uma aventura do Homem-coisa, escrito por Steve Gerber e desenhado por Val Maverick.
O monstro se envolvia em uma trama de encontros de realidades e – entre os personagens que surgiam estavam um bárbaro e um pato falante. Ao final da história, o pato simplesmente sumiu em meio às realidades, desaparecendo da história.
Seria o fim dele, mas os leitores gostaram do personagem e começaram a escrever para a Marvel pedindo mais histórias com aquele personagem. Roy Thomas, editor-chefe da editora na época, achava que o personagem não se sustentaria num título, mas Gerber garantiu que daria conta do serviço e o personagem ganhou uma segunda chance, primeiro na revista do Homem-coisa, depois com título próprio. O desenho ficou sob a responsabilidade de Frank Brunner (que havia ilustrada a fase mais lisérgica do Dr. Estranho) e depois de Gene Colan.
E eram aventuras absolutamente subversivas. Howard, depois que quicar em várias realidades, vem parar na terra, onde encontra uma linda moça que seria sua parceira e passa a viver suas aventuras enfrentando os tipos mais estranhos, a exemplo do Homem-nabo (vindo de uma espécie de vegetais agressivos que superaram os limites de suas raízes para se tornarem empreendedores galácticos), O Pestana (um artista com sonambolismo) e muitos outros.
Em uma das histórias, a dupla é vítima de uma gangue de valentões e Howard se torna mestre de Quac Fu em apenas três horas de treino!!! Aliás, essa é uma das aventuras mais divertidas, uma belíssima brincadeira homenagem ao personagem Shang Chi, da Marvel desenhada por John Buscema.
Howard não parava. Em um momento ele estava enfrentando um mágico contador espacial, em outro estava na cidade grande se deparando com uma velha gorda e adepta de teorias da conspiração, em outro estava num castelo vitoriano caindo aos pedaços enfrentando um monstro Frankstein feito de biscoito. Em outras palavras: era piração em cima de piração.
O ponto alto desse processo é quando o Partido Noturno resolve lançar Howard como candidato à presidência – e este passa a ser alvo de todo assassino profissional do país.
O personagem fez tanto sucesso que se tornou filme, uma película pouco inspirada que tinha pouco a ver com toda a subversão dos quadrinhos.

O CONTO DO SÁBIO CHINÊS - Raul Seixas

Hermafroditas


Encontrei em um sebo daqui de Macapá uma coleção chamada Paradigmas, da editora Século Futuro. Pelo que pude perceber, é um vesão nacional de uma coleção chilena. A tradução escorrega em alguns termos (os golfinhos, por exemplo, são chamados de delfins em um artigo. O rei Salomão é chamado de Solomón em outro), mas os artigos de origem parecem ser bons, escritos por gente que entende do assunto. Cada livreto trata de quatro temas. O que mais me chamou atenção tratava da inteligência dos golfinhos, de visões da morte, de poderes psi e de hermafroditas.
            O texto sobre hermafroditas se revelou de um inusitado interesse histórico. Bem poderia constar no volume História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges se fosse um pouco mais bem escrito.
            Os hermafroditas sempre existiram, apesar de durante séculos a medicina negar isso. Há uma grande variedade de pinturas e estátuas gregas sobre o tema. Os gregos pareciam ser fascinados pelo tema e explicavam o fenômeno através da união do filho de Hermes com a Afodite, que teria dado origem a um ser metade homem, metade mulher (ilustrando este texto, coloquei duas estátuas gregas sobre o tema). Mas os primeiros relatos históricos ocorrem a partir da Idade Média.
            Em uma delas o abade do mosteiro de Santa Genoveva descobriu que faltava dinheiro no tesouro do mosteiro e as suspeitas recaíram sobre um jovem que morava lá desde os 12 anos. O abade ordenou que fosse desnudado e açoitado. O rapaz se desesperou com a pena e pediu misericórdia. Disse que tinha nascido homem, mas que com o tempo percebera que era mulher. Nisso o verdadeiro ladrão foi pego. O abade pediu o exame de médicos, que chegaram à conclusão de que se tratava, de fato, de uma mulher. Ela passou a se vestir de mulher, casou-se e teve dois filhos.
            Casos como esse, como final feliz, são a excessão quando se trata de hermafroditas.
            Um caso que escandalizou a França no século XVII foi o de Marie le Marcis.
            Ela nascera mulher, de uma família pobre, que a colocou para trabalhar como camareira. Em das casas em que trabalhou, teve que dividir a cama com uma enfermeira viúva, Jeanne Lefébure. Na intimidade da noite, revelou a ela a curiosidade de sua sexualidade e as duas começaram a se relacionar.
            O amor foi crescendo e as duas decidiram se casar. Elas foram falar com Guillaume, pai de Marie, mas ela tentou convencê-las a mudar de opinião. Elas foram então procurar os parentes de Jeanne, que as aconselharam a consultar a penitenciária de Rouen. Para viajar, Marie se vestiu de homem e passou a se chamar Marin.
            As duas foram presas assim que se descobriu o caso e levadas a um tribunal. O juiz se viu sem saber o que fazer já que, apesar dos sinais aparentes de feminilidade, as duas declaravam que Marie era na verdade um homem. A viúva chegou a declarar inclusive que o seu sexo era perfeitamente capaz de realizar os atos maritais e que Marie, inclusive a satisfazia mais do que seu antigo marido.
            Uma junta de especialistas foi chamada e conclui que Maria não tinha nenhum sinal de virilidade.
            No julgamento, Marie reclamou que os supostos especialistas não haviam examinado seu sexo. Mas o processo estava encerrado e as duas foram entregues à Câmara do Conselho.
            O procurador do rei pediu ambas fossem condenadas, declarando-se culpadas com a cabeça e os pés descobertos, diante de uma igreja. Depois Marie seria queimada viva e seus bens confiscados. Jeanne assistiria à execução de sua cúmplice e depois seria açoitada e expulsa da região.
            Entretanto, antes que as penas fossem aplicadas, elas foram levadas ao Parlamento de Rouen, que pediu um novo exame de uma equipe de especialistas composta por 10 doutores em medicina, dois praticantes e duas parteiras.
            Marie foi examinada e a equipe declarou que não encontrou nela qualquer traço feminino, mas um dos médicos se revoltou com o exame superficial, já que a comissão havia se contentado com exames externos alegando que seria indecente apalpar o sexo da acusada. Mesmo diante da hojeriza dos colegas, ele examinou Marie e percebeu que ela era viril. Foi a salvação das duas, que foram inocentadas. Marie foi orientada a continuar se vestindo de mulher até os 25 anos e foi proibida de manter relações sexuais com qualquer pessoa, sob pena de morte.
            Pouco tempo depois, uma disputa por poder revelou outro famoso famoso caso de hermafroditismo na França.
            Nessa época a abadessa do Convento das Filhas de Deus cedeu seus benefícios eclesiásticos à sobrinha, senhorita d´Appremont. Mas havia uma outra pretendente ao cargo, irmã Damilly, que, em sua ofensiva, acusou d´Apremont de ser hermafrodita.
            O advogado de defesa alegou a lei de Longi tempori preascriptione, segundo a qual não se deve perturbar aqueles que estão de boa fé, na posse de algo por mais de 20 anos. A freira possuía sua feminilidade há mais de 50 anos e, portanto, seu sexo não poderia ser questionado. Além disso, a religiosa se opunha a qualquer exame: Não há nada de mais vergonhoso que este exame para o qual nem a noite tem suficiente escuridão, nem a natureza suficientes véus".
            O caso foi levado à corte eclesiástica de Chartres e se recorreu apenas a testemunhos de pessoas que diziam ter feito sexo com a religiosa. Como consequência, d´Appremont foi considerada culpada de abusar dos dois sexos e condenada a ser enforcada e depois queimada.
            O advogado da condenada apelou e conseguiu que a freira fosse examinada por especialistas, que concluiram que d´Appremont tinha os dois sexos. Ela foi, então, condenada a ser presa e açoitada e todos os seus bens foram confiscados.
            Outtro caso que angariou atenções na França e serviu de exemplo por parte dos iluministas, de que era necessária uma era de razão foi o Jean-Baptiste Grandjean. Ele nasceu mulher, com o nome de Claudine, mas aos 14 anos começou a perceber alterações não só físicas, mas também emocionais. Ela só se interessava por moças. A pedido do pai, foi se confessar com um padre, que disse que ela deveria se vestir de homem, pois continuar se vestindo de mulher seria cometer pecado contra a religião.
            Assim Claudine virou Jean-Baptiste e chamou a atenção de todas as moças da região. A primeira a manter relações com ele foi uma tal de Legrand, que seria fatal para o hermafrodita.
            Algum tempo depois ele conheceu Françoise Lambert e se casou com ela. Quis um destino que um dia a esposa se encontrasse com a antiga amante do marido, que a alertou para o fato de que seu esposo era um hermafrodita.
            A mulher consultou um confessor, que a aconselhou a não ter mais intimidades com o marido até que o caso fosse esclarecido. O casal ficou de visitar o Vigário, mas antes que isso ocorresse, Legrand já havia espalhado para todos o caso.
            A história chegou ao ouvido do Procurador, que ordenou a prisão de Jean-Bapitiste e posterior exame.
            Uma comissão designada concluiu que, embora tivesse traços de virilidade, a pessoa em questão era uma mulher.
            Grandjena foi condenado por profanar o sagrado sacramento do casamento. Seri exposto em praça pública por três dias, açoitado e ficaria em prisão perpétua.
            O rapaz apelou ao parlamento e passou a ser defendido pelo famoso advogado Verneil. Este analisou melhor o relatório dos especialistas e concluiu que seu cliente tinha sexualidade indefinida. Ele alegou que seu cliente tinha presunção de boa-fé, o que atenuava o delito.
            O parlamento admitiu a argumentação e absorveu o réu, mas também anulou seu casamento e impediu-o de casar novamente. Foi o último caso de hermafrodita levado aos tribunais.

Os quadros vivos do festival de Laguna Beach

Os tableaux vivants (quadros vivos) são uma tradição medieval que sobrevive hoje no festival de Laguna Beach, na Califórnia. Todo ano, centenas de atores se oferecem para reproduzir obras clássicas da arte mundial.
As representações, que duram em média 5 minutos, impressionam pelo fato dos mínimos detalhes dos quadros serem reproduzidos, inclusive sua textura, graças a um trabalho de iluminação, cenário e maquiagem e maquiagem. Até mesmo capas de quadrinhos são homenageadas. Confira abaixo algumas reproduções: