segunda-feira, dezembro 11, 2017

Ponto de venda: corres e aromas

Cor     
Todo mundo sabe a importância da cor em uma loja, mas poucos sabem usá-la. A maioria acha que usar bem a cor é usar o máximo possível, poluindo visualmente a loja. Na verdade, a regrinha básica é exatamente o oposto: em se tratando de cores, menos é mais.
O cliente deve ser capaz de identificar a cor da empresa. As cores da Volkswagen são azul e branco. Assim, tudo é azul e branco. Até mesmo se a loja fizer um feirão e resolver enfeitar com balões, os balões devem seguir essas cores. Isso ajuda a criar a identididade visual do estabelecimento, fixando a marca na cabeça do cliente.

Aromas
A ciência do ponto de venda inclui até os cheiros. Sim, os cheiros podem ajudar a vender. Quem nunca teve vontade de comer pão ao passar ao lado de uma padaria de supermercado e sentir o cheiro de pão fresco?
Algumas experiências com aromas artificais têm sido usadas, como colocar cheiro de bacon perto dos salgadinhos, ou de flores perto de produtos de limpeza. As lojas de perfume usam aromas como forma de incentivar o consumidor a comprar.
Já estão sendo testados até mesmo feromônios, hormônios sexuais, que deixariam os clientes mais propensos a aceitar sugestões dos vendedores. Mas isso ainda é especulação. O que se sabe mesmo é o que o uso correto de aromas pode aumentar em até 20% as vendas de uma loja ou supermercado.

Se existem cheiros bons, que ajudam a vender, existem aromas ruins, que devem ser evitados, entre eles o de peixe, carne e mofo. 

Feliz Natal


As aventuras do Barão de Munchausen


De como meu atraso ao pegar o trem em Londres provocou a independência do Brasil
Um conto Barão, ouvido e transcrito pelo senhor Duque Gian Danton, que jura serem todos os fatos aqui transcritos verdadeiros e desafia para um duelo qualquer um que venha a dizer o contrário

Já é por demais conhecido o fascínio que minha presença exerce sobre as mulheres de qualquer espécie, uma paixão desenfreada que quase me custou a vida quando passava férias na África Meridional. Mas essa é uma história que contarei em outra oportunidade. No momento, vou diverti-los um pouco, aproveitando para dar-lhes algumas lições sobre nobreza e cavalheirismo, contando a história de como a paixão de uma dama inglesa e meu atraso ao tomar o trem em Londres provocou a Independência de um simpático país do Novo Mundo chamado Brasil.
Talvez não seja de conhecimento de todos que a corte portuguesa precisou ausentar-se momentaneamente de Lisboa, premida que estava pela necessidade de ver e apreciar novos ares e, também, porque Napoleão Bonaparte lhes estava nos calcanhares.
Uma vez no Novo Mundo, o bom D. João VI percebeu que precisaria deixar um governante nas novas terras quando os homens de Napoleão se cansassem dos fados portugueses. E, fiel ao preceito de que o melhor pirão é o de casa, deixou seu filho, que, no entanto, já se enfadava com as mulheres nativas. Assim, o bom pai prometeu ao filho que lhe enviaria algumas damas européias e, como a Inglaterra era aliada de Portugal, não poderiam vir de outro local esses novos regalos para o jovem príncipe.
Como nessa época eu estava em visita a Portugal e como era o oficial mais eficiente e mais garboso disponível, fui escolhido para a importante missão de negociar com uma respeitável dama de Londres uma remessa para o príncipe.
Ocorre que tal dama não só era respeitável, como era também de bom gosto e não se furtou a se apaixonar por mim, de modo que nos enfurnamos em uma casa aos arredores da capital inglesa e quando saí de lá, descobri que o trem já havia partido.
Como o trem me levaria ao navio, perder o trem era o mesmo que perder o navio, e perder o navio era fracassar na missão. Assim, não tendo o que fazer, voltei para os braços da formosa Dama e nos divertimos mais um pouco.
Foi quando me lembrei de um expediente que utilizei quando do cerco a um castelo no qual estava entrincheirado e procurei o responsável pelos canhões da Rainha. Ele só me pediu uma bola de canhão em troca do que eu lhe solicitava e consegui uma no mercado negro por meras 2 libras. Assim, coloquei-me à frente do canhão e esperei que ele fosse acionado. Assim que ouvi o estrondo, agarrei-me à bola que saía dele e assim fui parar na França.
Usando esse método, fui viajando de lugar em lugar até chegar à África a uma rapidez absurda. Infelizmente os canhões africanos mal alcançavam até o meio do oceano Atlântico e tive de nadar o restante para chegar ao Rio de Janeiro. Todos sabem que sou um ótimo nadador e a verdade é que eu teria chegado antes do barco, não fosse a idéia que me ocorreu de levar comigo a bola de canhão como lembrança dessa fantástica viagem, o que, confesso, me atrasou algum tanto.
O fato é que quando o príncipe viu o navio chegando e não me encontrou a bordo, concluiu que seu pai falhara com ele e decidiu proclamar a independência do país, garantindo assim, para si, um estoque mais constante de moçoilas européias e nativas.
Quando cheguei à praia, descobriram o que havia acontecido, mas já era tarde demais. Assim, os entusiastas da Independência me proclamaram bem-feitor e pude comemorar por 10 dias naquelas terras abençoadas pelo sol. Do dia para noite virei herói nacional e até hoje o dia 31 de março é dedicado à minha memória, dia esse em que os militares brincalhões saem às ruas para comemorar de modo saudável dando tiros para o alto, dançando rumba e derrubando presidentes. Senhores, essa é a minha história, na qual asseguro de que todas as palavras são verdade. E, se algum falastrão duvidar, fá-lo-ei engolir uma garrafa de conhaque com vidro e tudo. Agora, se me dão licença, preciso me recolher aos meus aposentos. Há uma dama lá necessitando urgente de meus atributos... e não é lícito deixar uma dama em sozinha em tal estado...

Livro ensina como escrever quadrinhos


No livro Como escrever quadrinhos, Gian Danton explica, a partir de sua própria experiência, os princípios básicos do roteiro para quadrinhos incluindo as especificidades do texto quadrinístico. Livro finalista do prêmio HQ Mix.
Valor: 25 reais.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Mister Bean e a comédia


Aristóteles dizia que a comédia é a imitação das pessoas inferiores. Enquanto a tragédia mostraria pessoas superiores, cujo comportamento era louvável, a comédia mostraria pessoas cujo comportamento é reprovável. Portanto, rimos daquilo que reprovamos. Mas o comportamento reprovável muda de cultura para cultura. Um exemplo perfeito disso é o seriado Mister Bean, um dos maiores sucessos da TV britânica.
Além da ótima atuação de Rowan Atkinson, que nos faz rir sem dizer uma única palavra, há um outro fator que fez com que os ingleses se deliciassem com o seriado: o caráter do protagonista.
Mister Bean é alguém que quer sempre levar vantagem em tudo, que encontra sempre um jeitinho diferente para fazer as coisas. Se está no café da manhã de um hotel, quer comer mais que os outros hóspedes (e, na pressa de levar vantagem, acaba comendo ostras estragadas). Ao invés de contratar um serviço de entrega para levar seu sofá novo, ele o coloca acima do carro, o que acaba se revelando um desastre. Se perde o elevador, faz questão de atrasá-lo para que os que estão dentro demorem a chegar a seus andares.
Os episódios têm quase que um padrão fixo: Mister Bean geralmente tenta “dar um jeitinho em algo” ou levar vantagem em uma determinada situação e, invariavelmente, se dá mal – o humor surge exatamente dessa dinâmica.
É sintomático que Mister Bean seja uma série inglesa. Na Inglaterra, seguir as regras e pensar no bem comum é considerado o correto. Por isso Mister Bean se torna risível para os britânicos: ele é a pessoa que sempre tenta levar vantagem.

Aí vemos a diferença cultural entre Brasil e Inglaterra: aqui o comportamento risível é justamente o oposto: rimos do “otário”, daquele que parece ingênuo por não querer tirar vantagem das situações. O herói na grande maioria das vezes é o malandro, o que dá um jeitinho. É a lei de Gerson.  

Livro ensina como escrever quadrinhos


O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

A arte fantástica de Josephine Lilac


Josephine Lilac é uma artista inglesa especializada em fantasia. Seu estilo mistura influências do surrealismo e do romantismo. Confira abaixo alguns trabalhos dessa grande artista. 






domingo, dezembro 10, 2017

Gandhi e a doutrina da não-violência

Gandhi foi uma das mais importantes figuras históricas da Índia. Ele conseguiu tornar seu país independente da Inglaterra sem guerra ou violência e até hoje é visto como um homem santo, especialmente nas pequenas vilas indianas.  Os indianos tinham tão grande respeito por ele que o chamavam de Mahatma (Grande alma).
Essa grande alma nasceu no distrito de Gujarat, um local remoto e pouco visitado da Índia. O pai de Gandhi era primeiro ministro de Porbander. A mãe era devota de uma pequena seita conhecida como pranamis, uma mistura de hinduísmo com islamismo. Em seus templos, o Alcorão e os livros sagrados indianos eram igualmente venerados. Entre os preceitos desse culto estava o respeito por todas as crenças e a simplicidade no modo de vida, o que implicava em um vegetarianismo rígido, a repulsa do álcool e ao fumo e jejuns periódicos. Todos esses preceitos teriam grande influência sobre Gandhi.
Mas quem visse o pequeno Mohandas Karamchand Gandhi quando criança dificilmente desconfiaria de sua importância futura. Ele era extremamente tímido e aluno medíocre. Parecia tão burro que a única saída encontrada pela família foi enviá-lo para Londres para freqüentar o Inner Temple, uma escola tão fácil que até o mais estúpido dos alunos conseguia aprovação.
Gandhi, como a maioria dos indianos da época, sentia um misto de ressentimento e admiração pelos colonizadores ingleses, especialmente por causa da estatura elevada e vigor físico. Assim que chegou a Londres, Gandhi  se empenhou em tornar-se um perfeito inglês. Comprou um trraje ocidental, uma cartola e uma bengala. Tomou lições de dicção, francês e violino. Só não imitou os ocidentais no hábito de comer carne, uma promessa que havia feito à mãe antes de sair de sua terra natal.
Em sua estada em Londres, ele descobriu um restaurante vegetariano onde teve contato com livros que o marcariam para o resto da vida. Um deles foi Pelo Vegetarianismo, de H. S. Salt. A partir da leitura desse livro ele passou a atuar em sociedades vegetarianas, mas era tão tímido que tinha de pedir a outras pessoas que lessem seus comunicados.
Surpreendentemente, um dos livros que ele redescobriu na sua fase inglesa foi justamente um clássico indiano, o Bagavad Gita. Gandhi ficou tão fascinado que tomou esse livro como guia pelo resto da vida. Para ele, o livro devia ser visto não como uma verdade histórica, mas como uma alegoria. Assim, Krishna não estaria estimulando Arjuna a cumprir seus deveres militares, mas  ensinando à humanidade o valor do não-engajamento e a necessidade de agir sem desejar os frutos da ação.
Na época, ele leu também textos budistas, islâmicos e cristão e tentou encontrar algo em comum entre essas crenças. Achou o que queria na idéia de renúncia.
Outros autores que o influenciaram foram Tosltoi, com O reino dos céus está em você (livro no qual a doutrina da ação sem violência) e John Ruskin, com Unto this Last. Este último livro mostrou a Gandhi que a violência era gerada por uma ordem social desigual, o que o levaria a lutar contra o sistema de castas na Índia.
Em toda a sua história de lutas, Gandhi sempre se preocupara com a qualidade de vida das pessoas. Achava que as pessoas só seriam felizes se fosse livres para viver de acordo com suas escolhas. Mas essa liberdade também implicava o respeito à liberdade e dignidade dos demais.
Em 1891 ele estava formado em direito e rumou para casa e se deparou com o primeiro caso que lhe mostraria a realidade cruel do imperialismo. Enquanto estava na Inglaterra ele conhecera um homem chamado Charles Ollivant, um tipo educado e amistoso, que trabalhava como funcionário público na Índia. Gandhi precisou procurá-lo para resolver uma questão pessoal, mas foi recebido friamente  e acabou sendo expulso da propriedade. Gandhi protestou por escrito por aquela ofensa à sua dignidade. Ollivant respondeu que um indiano não tinha uma dignidade que pudesse ser resguardada.
 Essa experiência lhe mostrou como o relacionamento entre as pessoas pode ser corrompido quando uma domina a outra, uma realidade que ficaria mais clara quando ele viajou para a África do Sul para trabalhar como advogado. Para representar seu cliente, ele precisaria viajar de trem até Pretória. Assim, comprou uma passagem de primeira classe e esperou a viagem. Nisso um inglês entrou na cabine, viu Gandhi e voltou com um funcionário da ferrovia, que ordenou a Gandhi para viajar o vagão de bagagens. Isso se repetiu durante toda a viagem. Gandhi chegou até mesmo a ser espancado por um homem, só por ser indiano.
A luta contra o tratamento dado aos indianos na África seria a primeira bandeira defendida por Gandhi. Além de não poderem viajar na primeira classe, os indianos não tinham direito a voto e eram obrigados a se registrarem. Um policial poderia entrar numa casa indiana e revistar todos para ver se tinham o registro, o que era considerado uma ofensa, especialmente por causa das mulheres. Além disso, era cobrado um imposto abusivo de cada trabalhador indiano. Para piorar, uma lei declarava sem efeito os casamentos mulçumanos, parse e hindu.
Usando inicialmente de meios legais, Gandhi conseguiu algumas vitórias, como, por exemplo, uma indenização a um indiano que fora expulso de um trem. Mas logo ficou claro que só isso não seria o suficiente. Assim, ele empregou pela primeira vez a satyagraha, força-verdade, uma espécie de resistência civil pacífica que pretendia não derrotar o inimigo, mas trazê-los para sua causa.
Os registros, por exemplo, foram boicotados. Os indianos eram orientados a não molestarem ou insultarem qualquer um que quisesse se registrar. Mesmo assim, o registro foi um fiasco. Os indianos também foram orientados a saírem para a rua e negociarem sem licença, o que provocaria suas prisões.  As mulheres logo entraram nos protestos. Logos as prisões estavam lotadas de manifestantes, provocando grandes problemas e constrangimentos para as autoridades.
A polícia também usou de violência, atirando contra trabalhadores, o que colocou a opinião pública contra o governo. Até o Vice-rei da Índia protestou contra a situação na África e as autoridades foram obrigadas a libertar Gandhi e negociar. Os indianos tiveram praticamente todas as suas exigências atendidas.
Quando Gandhi voltou a Índia, foi recebido como herói nacional. Ele era visto como o homem capaz de devolver a liberdade ao país. Mas ele deixou claro que não queria apenas a independência da Índia: queria também uma situação melhor para o povo e o fim da sociedade de castas. Esse posicionamento foi demonstrado numa reunião do congresso nacional. Os párias eram proibidos de entrar, o que provocou um problema, já que eles eram encarregados de limpar os banheiros. Gandhi não pensou duas vezes: pegou a material e foi limpar o vaso que pretendia usar. Além disso, ele abandonou os trajes ocidentais e começou a usar roupa feita por ele mesmo. Ele percebeu que a indústria de tecidos havia destruído uma importante parte da cultura indiana e provocado mais miséria e infelicidade. Assim, ele elegeu a roca (instrumento usado para fiar o algodão) como símbolo de sua filosofia.
Sob a liderança de Gandhi, os indianos começaram a bular leis e regras abusivas. Os protestos incluíam fazer sal (só os ingleses tinham autorização para fazer sal), vender livros proibidos ou distribuir o jornal Satyagrahi, editado por Gandhi. O Vice-rei foi avisado como parte da filosofia de Gandhi de ser totalmente leal com o adversário.
A reação das autoridades foi violenta. 379 pessoas foram mortas e mais de mil pessoas foram feridas. Para desgosto de Gandhi, muitos indianos haviam reagido violentamente à provocação da polícia, mas apenas nos locais onde não havia voluntários treinados na não-violência, ou onde estes haviam sido presos.
Gandhi foi preso e seu julgamento foi um ótimo exemplo de sua política de converter o oponente.  Juiz e réu trataram-se com tão grande cavalheirismo que muitos perceberam que o magistrado o admirava por sua coragem e probidade.
Gandhi foi condenado a seis anos de prisão e agradeceu a cortesia com que foi tratado.
Ao fim desse tempo, ele voltou à ação, numa serie de protestos que levariam a Índia à independência.
Um dos atos mais importantes dessa luta foi a marcha do sal, acontecida em 1930.
Os indianos eram proibidos de fazer o próprio sal e eram obrigados a pagar altas taxas pelo sal fabricado pelos ingleses. Quem mais sofria com essa determinação eram os pobres. Assim, Gandhi iniciou uma marcha na direção das salinas. Antes, ele mandou uma carta ao Vice-rei, informando-o do movimento. A marcha começou com 78 participantes, mas aos poucos foram se juntando milhares de pessoas. Os ingleses começaram a prender a todos que podiam, mas logo as prisões estavam lotadas.
Além das prisões, a polícia usou de extrema violência, mas os indianos não revidavam, pois sabiam que, se isso acontecesse, Gandhi cancelaria o movimento.
Um repórter que assistira aos protestos escreveu que os ingleses (que se orgulhavam muito de sua civilidade) haviam tido uma derrota moral ao agirem como bárbaro diante de pessoas totalmente pacíficas.
A opinião pública se voltou contra a Inglaterra e o Vice-rei foi obrigado a negociar.
Gandhi também comandou boicotes a produtos ingleses, especialmente as roupas. Ele propunha que as roupas fossem feitas pelas próprias pessoas, independente de sua condição social.
Nos anos seguintes, ele foi preso diversas vezes, mas as prisões, ao invés de calá-lo, só pareciam multiplicar o número de seus seguidores.
 Finalmente, em 15 de agosto de 1947, a Índia tornou-se independente, mas Gandhi não comemorou. Ele estava triste por saber que o país que tanto amava ia ser dividido em dois: o Paquistão, de religião mulçumana e a Índia, predominantemente hindu.
No dia 30 de janeiro de 1948 ele foi assassinado a tiros, em Nova Déli, por um fanático hindu, que não aceitava a política de Gandhi, segundo a qual todas as pessoas fossem tratadas com justiça e generosidade, independente da religião. Apesar do pedido de Mahatma para seu assassino não fosse punido, este foi preso e enforcado.
George Woodcock diz, no livro As idéias de Gandhi, que este foi um dos políticos mais hábeis de seu tempo, ¨ainda mais notável porque, recordando as lições do Bagavad Gita, jamais buscou recompensas da política¨.

Feliz Natal


Álbum de figurinhas Super Powers

Em 1988 a Cromy aproveitou que havia uma profusão de imagens de José Luís Garcia-Lopes usadas pela DC em produtos licenciados para fazer um álbum de figurinhas. As figurinhas eram metalizadas, uma novidade total para a época e as imagens faziam os fãs de quadrinhos babarem com a arte espetacular do mestre. Eu nunca tive o costume de colecionar figurinhas e deixei passar essa - e me arrependo até hoje. É um item de colecionador, disputado a tapas atualmente. Veja algumas páginas do álbum.









Feliz natal


Mindhunter: na mente dos assassinos


“Quem combate os monstros deve tomar cuidado para não se tornar também um deles. Se você olhar para a face do abismo, o abismo olhará para você”. Essa frase de Nietzsche é o melhor resumo da nova série da Netflix, Mindhunter.
Mindhunter foi criado por Joe Penhall com produção e direção de David Fincher, o famoso diretor de Seven e Clube da Luta.
Baseada em fatos reais, a série mostra como foi montada a divisão do FBI que entrevistava serial killers para fazer o perfil psicológico hoje usado pela polícia. E tudo começa meio que por acaso: um dia, quando estavam fazendo palestras para os policiais, um dos membros da divisão comportamental resolve visitar Ed Kemper na prisão. Big Ed é um dos mais famosos psicopatas de todos os tempos, tendo sido responsável pela morte e decapitação de jovens universitárias e até da própria mãe.
O que era uma atividade clandestina logo se torna uma divisão do FBI quando fica claro que o perfil criado a partir da entrevista com o Big Ed pode ajuda a prender outros criminosos.
Mas Mindhunter não é sobre infalíveis agentes do FBI prendendo psicopatas. Há muito pouca ação. A ênfase na maioria das vezes está nas tensas entrevistas com os assassinos e na forma nem sempre ética usada para conseguir as informações. E, principalmente, na maneira como isso mexe com o psicológico dos dois agentes responsáveis pelas entrevistas, afetando suas vidas profissionais, familiares e até sexuais.  

Mindhunter é um dos seriados mais inteligentes dos últimos tempos. 

Leitura e escola

A preocupação com a leitura parece cada vez mais urgente num país como o Brasil. Há tempos não se consegue formar uma geração de leitores, mas a situação parece ter piorado. A escola, que deveria ser a grande incentivadora da leitura, está provocando dois fenômenos preocupantes: o analfabetismo funcional e a fobia de livros. 

Os analfabetos funcionais são aqueles que frequentaram a escola mas, por falta de contato com a leitura e a escrita, foram perdendo a capacidade de compreensão do mundo das palavras. Luzia de Maria, no livro Leitura e colheita, conta que realizava uma oficina de leitura quando disse que um analfabeto funcional era aquele que não conseguia entender revistas como Veja, Isto e Época, e três professoras da plateia disseram: "eu". 

A fobia de livros é perfeitamente percebida quando se ouve alguém dizer que tem dor de cabeça quando começa a ler. É como se o organismo reagisse patologicamente a uma experiência traumática. 

Certa vez, eu lecionava um curso de histórias em quadrinhos para crianças da periferia de Belém e perguntei a elas qual era a diferença entre um gibi e um livro. Eu esperava que elas apontassem a ilustração como diferença, pois é possível publicar um livro sem desenhos, mas não é possível o mesmo com uma HQ. A resposta, dada por uma menina, surpreendeu-me: "O livro é chato; história em quadrinho é divertida". 

Na cabeça dela, o livro era algo lido por obrigação puramente escolar, sem nenhum prazer ou contato com a vida.

A grande pergunta que surge é: onde a escola errou? Por que, ao invés de despertar os alunos para a magia da leitura, ela os afastou dessa mesma magia? 

Esse desvio no caminho tem sua origem na noção de leitura que acompanha a maior parte da vida escolar. Nas escolas ainda predomina a visão do livro como objeto sagrado, típica da Idade Média. Nessa época, os escritos eram encadernados em couro, com ornamentação de metais preciosos. As Bíblias que existiam nas igrejas ficavam presas por correntes. O livro era um objeto caro, raro e distante.



Com a invenção da imprensa, surge aquilo que Marshall McLuhanchamou de "Galáxia Gutenberg". É inaugurado o pensamento linear e a visão cartesiana de mundo. 

É também a época das gramáticas normativas. Esses gramáticos viam na palavra escrita o lugar de acerto, de uma linguagem correta, a linguagem dos bons doutos. A linguagem oral, ao contrário, era o lugar do erro, do caos, da inconstância. Orientados pelo pensamento cartesiano, esses gramáticos se interessaram apenas pela ordem expressa da palavra escrita. 

Na escola, essa visão separou a fala e a escrita como ações contrárias, e os textos perderam contato com a vida real. Sua utilização na sala de aula privilegiava não o entendimento, não a atribuição de significado, mas a capacidade de decodificar os signos e de identificar classes gramaticais ou sintáticas. 

Assim, alfabetizado era aquele capaz de ler um texto em voz alta, ou tirar dele os substantivos, os verbos ou identificar as construções sintáticas. Pouco interessava se a pessoa estava conseguindo atribuir significado ao que lia.

Isso não faz parte de um passado remoto. Dia desses, meu filho trouxe um dever de caso que era a "interpretação" de um texto. A tal interpretação consistia apenas em descobrir encontros vocálicos no texto. Ou seja, a narrativa era apenas uma espécie refinada de tortura, com pouquíssima utilidade prática e sem nenhum significado. 

Rubem Alves diz que tem calafrios quando sabe que um de seus textos está sendo utilizado para isso. Enquanto escreve, nenhum escritor pensa em verbos, substantivos, ditongos, hiatos ou algo do gênero. 

Certa vez utilizaram um texto meu, sobre McLuhan, em um vestibular. Fui resolver as questões relacionadas ao meu texto e errei algumas. No texto eu explicava a teoria do filósofo canadense segundo a qual o homem inventou extensões de seu próprio corpo para melhorar seu desempenho. Uma das questões perguntava o que não era extensão do corpo humano. A resposta, segundo os elaboradores da prova, era roupa, porque eu não citava o vestuário em meu texto. Entretanto, uma compreensão correta do artigo levaria a identificar que o conceito era ampliável também para as roupas, afinal, elas são uma extensão da pele. O exemplo mostra que até a interpretação de um texto pode ser transformada em um ato mecânico, de retirar informações de um conjunto de palavras, sem a necessidade de entender seus conceitos. 

A falta de sentido desses exercícios é exemplificada num fato simples: gramática nenhuma jamais transformou alguém em escritor. Escrever é um ato criativo e pensar em hiatos e ditongos enquanto se escreve é provavelmente a melhor forma de se ter um bloqueio. 


Tenho um livro infantil, Os Gatos, publicado por uma editora de Curitiba. Na época a editora estava iniciando na área de literatura infantil e chamou um gramático para revisar os originais. A revisão tornou o texto totalmente incompreensível para uma criança e a editora foi obrigada a chamar uma professora de literatura infantil para refazer a revisão. Para o gramático, era mais importante que o livro fosse escrito nos moldes renascentistas da gramática normativa. Se haveria compreensão por parte da criança, pouco importava. 

Só existe uma maneira de tomar gosto pela leitura: lendo. Só existe uma forma de aprender a escrever bem: escrevendo. Nunca conheci um grande autor que não fosse um leitor voraz e um escritor compulsivo. 

Enquanto o texto for encarado apenas pelos seus aspectos gramaticais, enquanto a interpretação for a simples decodificação, sem a possibilidade de variedade de leituras ou de interpretação, a escola será sempre a criadora de analfabetos funcionais e de pessoas que têm dor de cabeça à simples visão de um livro.

sábado, dezembro 09, 2017

Ponto de venda: comunicação visual


A comunicação visual no ponto de venda é importantíssima. Antes de mais nada, é ela que permite ao consumidor visualizar o ponto de venda. A comunicação visual inclui desde a sinalização (que mostra onde encontrar os produtos) até banners com pôsteres com o perfil de clientes usando os produtos. Pouco importantes para os leigos, esses banners criam uma identificação com o cliente e fazem com que ele queira comprar e consumir os produtos.
As decorações sazonais também são importantes. Elas ajudam a “criar o clima”. Já imaginou entrar em uma loja, no final de ano, sem decoração de Natal? Parece que está faltando alguma coisa. Mas é necessário tomar cuidado com essas decorações. O ideal é, passada data, retirar tudo.
Também é necessário tomar cuidado com cartazes, avisos e placas. Placas velhas, com letras tortas ou com erros de português mancham a imagem da loja e podem destruir todo o esforço de merchandising. 

Feliz natal


Distopias hipodérmicas em Literatura Lado B

Literatura Lado B foi uma antologia organizada por Denize Lazarin e Rodolfo Londero e publicado pela Editora da Unicentro com textos sobre ficção científica, terror, fantasia e quadrinhos.
O título refere-se ao fato desse tipo de literatura ter pouca visibilidade nos estudos acadêmicos. Geralmente o lado B é o que trazia as músicas menos conhecidos dos discos. Da mesma forma, são poucos os estudos sobre literatura de gênero no Brasil

Eu colaborei com o artigo “As distopias hipodérmicas”, sobre a como a teoria hipodérmica da mídia influenciou algumas das principais distopias do século XX: Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451. Clique aqui para baixar o livro. 

Biografia de uma lenda


Informamos ao nosso distinto público que se encontra à venda o livro Francisco Iwerten - A Biografia de uma Lenda ao preço promocional de 15 reais apenas até o início do ano. Aproveite o clima natalino para presentear seus amigos com essa maravilhosa biografia. Interessados, favor contatar o senhor Gian Danton através do e-mail profivancarlo@gmail.com e mencionar este anúncio. 

A arte polêmica de Caravaggio


Michelangelo Merisi da Caravaggio é um dos grandes nomes do barroco italiano. Sua obra é considerada uma das mais emblemáticas do período, entretanto provocou grande polêmica à época por retratar figuras bíblicas com feições de pessoas comuns da italiana renascentistas, inclusive prostitutas e cafetões amigos seus. Sua obra angariou severos críticos, mas também apaixonados admiradores. Confira algumas pinturas desse controverso artista.  











Feliz natal


A convergência de mídias

Vivemos em um mundo em que a separação entre as coisas vai, aos poucos, se diluindo. Casa, trabalho, diversão e informação são instâncias que se misturam na era da informação. Da mesma forma, a separação entre os meios perde cada vez mais valor, num fenômeno que os estudiosos chamam de convergência de mídias. Para entender esse fenômeno, é necessário associá-lo à sociedade em redes que surge em oposição à era das massas. 

No período dominado pelos MCM, o esquema era um para muitos. Um único produtor confeccionava a mensagem e a transmitia para uma grande legião de receptores. A estes, só restava consumir ou não. A única outra forma possível de feedback eram as respostas a pesquisas de opinião. 


 
A internet mudou completamente esse esquema. Agora todos querem ser produtores, todos querem participar e interagir, daí o sucesso de redes sociais, como o Facebook e o Twitter. Até mesmo os políticos, normalmente pouco afeitos a abrirem um canal de retroação com seus eleitores, foram obrigados adotar a lógica interativa. É bastante conhecido o uso do Twitter como elemento importante na campanha de Obama à presidência dos EUA. No Brasil vários políticos estão adotando o Twitter como forma de divulgar suas ações e conversar com os eleitores. Entretanto, aqueles que entraram na rede, mas se recusaram a interagir, revelando um desconhecimento do funcionamento das novas mídias, foram bloqueados pela maioria das pessoas. 

Essa postura interativa das novas gerações leva a uma cultura de convergência. Os jovens antenados assistem à notícia na TV, procuram mais informações em blogs e comentam o assunto no Twitter. Muitos nem usam mais a TV, preferindo aparelhos celulares, ou o Youtube. 


Para que essa cultura de convergência são necessários dois fatores: a digitalização crescente de conteúdos e a disponibilização dos mesmos na rede mundial de computadores. A digitalização nem sempre é feita pelos produtores, muitos dos quais se recusam a aceitar a nova realidade do cibermundo, mas pelos próprios consumidores.

Castells, no livro A sociedade em rede, diz que a origem universitária da internet faz com que ela adote como lema: todos contribuem com todos. Nessa nova realidade, o status é dado pela capacidade colaborativa. Quem mais transmite e difunde informações ganha seguidores e respeito. Exemplo disso são os blogs de scans, cujos autores escaneiam suas coleções, disponibilizando histórias em quadrinhos, muitas das quais raras, ou que nunca seriam lançadas no Brasil. 

 Essa cultura de compartilhamento faz com que programas de TV estejam disponíveis no Youtube ou em outros sites pouco depois de sua exibição. Alguns programas tentam lutar contra essa tendência, outros se aproveitam disso para aumentar sua audiência, como o CQC e Lost. 

O caso do Proteste Já Barueri é exemplo disso. No ano de 2010, o CQC doou uma televisão de plasma à prefeitura de Barueri para ser usada em uma escola pública. O aparelho foi desviado para a casa de uma funcionária. A matéria foi proibida pela justiça e o anúncio da proibição fez aumentar os comentários no Twitter, em tempo real, sobre o caso. A tag #cqc logo se transformou numa das mais populares e permaneceu assim durante toda a semana seguinte, num movimento virtual pela liberação da reportagem. O perfil dos responsáveis pela denúncia, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, logo se tornou o mais popular do Brasil. Hoje Rafinha é a personalidade mais influente do mundo no Twitter. 

A exibição o programa na semana seguinte se beneficiou desse viral. Curiosamente, muitos dos que comentaram o assunto não haviam assistindo na televisão, mas no Youtube. 

O assuntou ganhou novo fôlego na rede com a divulgação de um vídeo amador no qual a filha do secretário de educação de Barueri aparecia ameaçando expulsar um colega de turma da faculdade. Como uma bola de neve, que se auto-alimenta, o vídeo aumentou a procura pela reportagem do CQC na internet e estimulou a audiência do programa. Por sua vez, os integrantes do programa também contribuíram para aumentar a visibilidade do vídeo. 


Outros exemplos de estratégias de convergência são o filme Matrix e o seriado Lost. Matrix usou os filmes, jogos, histórias em quadrinhos e até contos para contar a história. 

Lost foi chamado pela revista Superinteressante como a série que marcou o fim da TV como a conhecemos hoje. Seriado da era da convergência, Lost teve parte de sua história contada em episódios para celular e as mais diversas informações espalhadas pela internet. O enredo complexo justifica essa busca e levou até à criação de uma Lostpedia por parte dos fãs. 

Nesse contexto, os fabricantes buscam a criação de um aparelho que resuma essa convergência. Em aparelhos celulares já é possível assistir à televisão, ouvir rádio, fazer ligações, mandar mensagens, entrar na internet, jogar e entrar na internet para interagir com outras pessoas através das redes sociais. O sucesso dos smartphones é sinal claro da tendência do mercado a procurar aparelhos convergentes. 

O recente sucesso dos tablets também é demonstração da busca por uma unimídia, um aparelho que faça a convergência pela qual anseia a nova geração. Da mesma forma, o anúncio do Google TV, versão do mecanismo de busca para a televisão digital indica outra possibilidade nesse sentido. 

Qualquer que seja o futuro das comunicações, ela será focada busca de uma mídia que reúna em si todas as outras. A convergência parece ser um fenômeno irreversível.